A barbárie legalizada: civilização sem Deus, justiça sem alma
Patrícia Castro
12/23/20254 min read
É impressionante como o homem contemporâneo se deixou embriagar pela tecnologia. Os mais velhos ainda conservam lembranças de um tempo que não volta mais; os mais jovens sequer sabem existir sem a comodidade absoluta que hoje consideramos normal. Muitos de nossos avós viveram sem máquina de lavar, sem geladeira, sem eletricidade, sem conforto algum — realidades tão banais hoje que já nem conseguimos conceber sua ausência.
Essa avalanche tecnológica cria a ilusão de progresso. Não precisamos mais ir ao banco; compramos pela internet, pagamos contas por aplicativos, já não sacamos dinheiro — a moeda tornou-se digital — e conversamos com pessoas do outro lado do mundo por meio de um pequeno objeto que carregamos no bolso. Tudo parece mais eficiente, mais rápido, mais “humano”.
Mas basta olhar pela tela desse mesmo aparelho que nos oferece tanta comodidade para perceber que não estamos avançando. Estamos regredindo. E a barbárie de hoje não tem o rosto tosco dos povos primitivos: ela é sofisticada, legalizada e moralmente cínica.
Esse arcabouço tecnológico, em si, não é o problema. Falando sobre a bomba atômica, Fulton Sheen já alertava que o mal não estava no artefato, mas na mente que o concebeu: “não são as bombas que ameaçam o mundo, são os homens”. A matéria não é má. A técnica não é perversa. O que apodreceu foi o coração humano — e ele apodreceu porque se afastou de Deus.
Hoje, colhemos os frutos dessa rebelião.
Na Inglaterra, uma jovem de 18 anos foi condenada à prisão perpétua — depois reduzida para 17 anos — por ter matado o homem que a violentou. Uma garota cuja dignidade foi rasgada, cuja intimidade foi tomada à força, cuja vida foi marcada de forma irreversível pela violência, agora vê o peso da justiça recair sobre ela — a vítima. O agressor destruiu sua alma em alguns minutos; o Estado decidiu destruir o restante de sua juventude com o selo oficial de “justiça”.
Isso não é civilização. É barbárie — e hoje ela veste toga.
Seria reconfortante imaginar que esse desvio moral é um problema distante, restrito a um país específico. Mas a barbárie contemporânea não respeita fronteiras. Ela se espalha com a mesma lógica, ou melhor, falta de lógica.
Na Inglaterra, uma vítima é sacrificada no altar de uma lei desumana. Na França, a Cidade Luz cancela seus rituais públicos por medo da própria sombra, refém de uma violência crescente alimentada por políticas irresponsáveis — violência que não pode sequer ser nomeada sem escândalo, porque a verdade fere o dogma politicamente correto. No Brasil, o quadro se completa: há exilados políticos tratados como párias, pessoas manifestamente inocentes apodrecendo atrás das grades e criminosos reincidentes circulando livremente pelas ruas, tudo embalado em decisões tecnicamente sofisticadas e moralmente grotescas.
Três países distintos, a mesma lógica perversa: pune-se quem reage, silencia-se quem discorda e protege-se quem ameaça. A lei permanece de pé; a justiça, não. O que ruiu não foram os sistemas — foi a consciência que deveria governá-los.
Não se trata de exaltar a violência, mas de reconhecer a obscenidade moral de um mundo jurídico que protege o agressor com teorias abstratas e sacrifica a vítima. Quando a lei perde a capacidade de reconhecer o sofrimento real, ela deixa de ser justiça e se transforma em instrumento de crueldade legitimada.
Esse caso não é exceção. É sintoma. Vivemos em uma "civilização" na qual:
crianças podem ser eliminadas antes de nascer, em nome da “autonomia”;
idosos são descartados para não comprometer estatísticas;
doentes são empurrados para a morte por conveniência social;
criminosos são explicados, enquanto vítimas são relativizadas.
Tudo isso em sociedades abarrotadas de diplomas, tribunais, ONGs e discursos emocionados sobre “direitos humanos”.
O que desapareceu não foi a organização social — foi a consciência moral.
Fulton Sheen descreveu esse processo com precisão cirúrgica: primeiro, o homem torna-se indiferente a Deus; depois, passa a odiá-Lo; por fim, esse ódio transborda para os outros homens. Quem rompe o primeiro vínculo do amor — o vínculo com Deus — já não consegue sustentar nenhum outro. O resultado é inevitável: uma sociedade que já não sabe distinguir justiça de crueldade.
A modernidade acreditou que poderia dominar a natureza sem obedecer a nenhuma lei superior. Conseguiu dominar a matéria, mas perdeu o domínio de si mesma. O homem moderno não é livre — é escravo dos próprios impulsos, das próprias ideologias e das próprias contradições.
Quando Deus é expulso, o homem deixa de ser sagrado. Quando o homem deixa de ser sagrado, tudo vira cálculo.
E quando tudo vira cálculo, os inocentes sempre pagam a conta.
A barbárie contemporânea não usa clavas nem fogueiras. Ela usa sentenças judiciais, pareceres técnicos e vocabulário “humanitário”. Mata com luvas, destrói com justificativas, condena com tranquilidade moral.
Não será a fiscalização de armas, nem mais leis, nem organismos internacionais que resolverão isso. Nenhuma estrutura corrige uma alma deformada. O problema do mundo não é político, jurídico ou tecnológico. É espiritual.
Civilizações não caem porque falham em progredir, mas porque se recusam a obedecer a Deus. O retorno à verdadeira civilização só será possível quando o homem abandonar a fantasia de ocupar o lugar do Criador e aceitar, novamente, a condição de criatura. É preciso educar os filhos na virtude, ensiná-los a amar a Deus e ao próximo, para que as próximas gerações consigam enxergar a realidade que hoje se tornou invisível a um mundo que se afastou de Deus, abandonou a religião e se entregou a ideologias travestidas de justiça, mas marcadas por sangue.
Toda sociedade que tenta viver sem Deus acaba descobrindo — sempre tarde demais — que também não consegue viver com o homem.

