O conforto de errar com a maioria

Patrícia Castro

1/24/20263 min read

Poucas coisas são tão sedutoras quanto errar acompanhado. Quando o erro se torna coletivo, ele deixa de parecer erro e passa a assumir a forma de consenso. A responsabilidade pessoal se dilui, e a consciência encontra repouso na estatística: "se todos pensam assim, logo não pode estar errado".

José Ortega y Gasset chamou esse fenômeno de mentalidade do homem-massa: aquele que não quer razões, mas resultados; que não busca a verdade, prefere o conforto e considera ofensivo tudo aquilo que o obriga a pensar. Para o homem-massa, a discordância  ameaça à sua tranquilidade.

A busca da verdade exige esforço, risco e, muitas vezes, isolamento. Já o erro compartilhado oferece abrigo. E poucos episódios recentes revelaram isso de forma tão clara quanto o que ocorreu durante a pandemia da Covid-19.

Naquele período, médicos e cientistas que defendiam prevenção, cautela, debate científico aberto e pluralidade de abordagens foram ridicularizados, censurados e moralmente desqualificados. Não importava o currículo, a experiência clínica ou a intenção de proteger vidas. Bastava divergir do discurso dominante para ser tachado de irresponsável ou negacionista.

Ao mesmo tempo, aqueles que defendiam a vacinação em massa com produtos ainda em fase experimental, amparados por uma narrativa oficial e por grandes instituições, foram automaticamente elevados à condição de autoridades morais. Questioná-los não era visto como prudência científica, mas como heresia social. Não se podia debater; apenas obedecer — mesmo quando essa obediência pudesse custar a própria vida.

Pensar sempre representa um perigo para aqueles que desejam exercer domínio. Por isso, o apelo emocional torna-se a ferramenta preferida: ele dispensa argumentos, silencia perguntas e substitui a ciência por algo bem distante da verdade — o consenso.

Independentemente da posição que se adote hoje sobre aqueles acontecimentos, ninguém pode negar o quanto o comportamento coletivo foi revelador. A maioria não quis pensar, mas alinhar-se, pertencer ao rebanho que era conduzido pela narrativa oficial. E, como advertia Ortega, ser diferente tornou-se indecente.

Para desfazer esse pensamento bizarro, recorramos a Santo Agostinho que desmonta essa lógica com clareza desarmante: “A verdade não é alterada pelo número dos que nela creem.” A aclamação não transforma hipótese em verdade, nem o isolamento converte um argumento em erro. A verdade permanece o que é, ainda que seja incômoda e minoritária.

Podemos relembrar também as palavras de Jesus advertindo que a porta do céu é estreita. Infelizmente, apesar de todo o sacrifício feito por Ele, muitos optam pela porta larga e caminham para a perdição porque amam mais este mundo atolado em mentiras do que a Deus. Em outras palavras, preferem uma mentira confortável a uma verdade incômoda.

Mais grave ainda é a dimensão moral desse fenômeno. São João Paulo II ensina, na Veritatis Splendor, que uma consciência errônea continua sendo culpável quando a pessoa se recusa a procurar a verdade. Não é apenas o erro que compromete, mas a preguiça deliberada de pensar, o medo de questionar e a recusa de sair do conforto do rebanho.

A pandemia revelou muito sobre a questão sanitária, mas, no dia a dia, inúmeras pessoas continuam enfrentando problemas dos mais diversos porque se recusam a abrir a mente para buscar a verdade, custe o que custar.

Disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Isso vale para qualquer área da vida.

Se você é um desses que ama ser aceito por todo mundo e foge de discussões que contestam suas ideias, vai um conselho: saia da caverna. Existe um mundo ensolarado esperando por você lá fora.