O ódio moderno à religião e a falsa oposição entre Espírito e Igreja
Patrícia Castro
12/22/20254 min read
Outro dia, ao relatar meu testemunho de conversão a uma mulher protestante, logo percebi seu incômodo. Era previsível. Eu havia feito o caminho inverso ao dela: enquanto eu retornava ao catolicismo, ela havia abandonado a Igreja para se unir aos que protestam contra ela. Ao final da conversa, tentou encerrá-la de forma mais cordial, recorrendo a uma máxima típica do discurso protestante — repetida em púlpitos, vídeos e aconselhamentos — na qual líderes demonizam a religiosidade, associando o termo religião ao farisaísmo, como se toda prática religiosa fosse, por definição, corrupta e oposta ao Espírito Santo:
“Religião não importa. Religião separa pessoas, causa guerras. Religião é uma coisa ruim. O que importa é o coração estar na fé em Cristo.”
Esse falso conceito de religião não passa de mais uma ideologia assimilada sem reflexão — e que eu mesma já repeti inúmeras vezes, sem jamais ter estudado sobre o tema. Apenas reproduzia o que pastores repetem rotineiramente. O mais irônico é que não há nada de evangélico nessa rejeição da religião; trata-se, antes, de uma leitura superficial — e indecorosa — das Escrituras.
O ódio moderno à religião nasce sempre da velha tentação: a de separar Deus de toda mediação concreta, visível e institucional. Desde o Éden, quando a serpente convenceu Eva de que a obediência era um obstáculo à liberdade, a lógica é a mesma — a suspeita contra qualquer ordem dada por Deus. Séculos depois, Karl Marx, que não escondia seu ódio à religião e seus valores superiores - sequer educou os próprios filhos - resumiu essa aversão ao definir a religião como o “ópio do povo”. Não romantizem: Marx não pretendia purificar a fé nem corrigir algum desvio; pretendia eliminá-la. Para ele, Deus não existia, a alma era uma ficção e a transcendência funcionava apenas como instrumento de alienação social. A religião, em sua visão, deveria desaparecer.
O que causa verdadeira perplexidade não é Marx ter dito isso, mas ver cristãos repetindo — agora com linguagem piedosa — o mesmo desprezo pela religião de um pensador materialista, como se negá-la fosse sinal de maturidade espiritual.
Quando alguém afirma que “religião mata”, ignora — ou finge ignorar — quem de fato mata cristãos por causa da fé. Ao repetir esse discurso, certos líderes recorrem a um jogo retórico desonesto: redefinem religião como hipocrisia e, em seguida, atacam essa caricatura. Não enfrentam a religião real, mas uma versão conveniente dela. Trata-se de uma falácia evidente.
A Sagrada Escritura, aliás, não condena a religião; condena a falsa religião. São Tiago é explícito ao afirmar que existe uma religião verdadeira:
“A religião pura e sem mácula diante de Deus consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se incontaminado do mundo.”
Dizer que “religião é ruim”, portanto, não é apenas um erro conceitual; é uma afirmação frontalmente contrária à Bíblia. O que deveria ser combatido seria as falsas religiões que dizem estar agindo em nome de Deus e ensinam o contrário do que Jesus nos deixou.
A associação automática entre religião e farisaísmo revela uma preguiça intelectual e confusão teológica. Os fariseus não foram condenados por rezar, jejuar ou observar a Lei, mas por fazê-lo sem conversão interior. Cristo jamais atacou a disciplina religiosa; atacou a hipocrisia. Transformar essa crítica moral numa rejeição estrutural da religião é distorcer o Evangelho.
Mais grave ainda é a falsa oposição entre Espírito e religião. Na prática, ela conduz à negação da Encarnação. Essa mentalidade não é nova; tem nome: gnosticismo. Os gnósticos acreditavam que a matéria era má e que a salvação se dava por uma experiência espiritual interior, desligada de sinais visíveis. Cristo combateu essa visão de modo concreto. Ao curar o cego de nascença, cuspiu no chão, fez barro com a saliva e aplicou-o nos olhos do homem (Jo 9). Poderia ter curado com uma palavra, mas escolheu usar a matéria. O gesto não foi acidental; foi doutrinal.
Com esse sinal, Cristo afirmou que a matéria não é inimiga do Espírito e que Deus age por mediações visíveis. O mesmo Cristo que usou o barro instituiu a água do batismo, o pão e o vinho da Eucaristia, o óleo e a imposição das mãos. Tudo isso é religião — no sentido mais pleno e verdadeiro do termo.
Negar a religião em nome do “Espírito” é, portanto, reincidir no erro gnóstico que o próprio Cristo refutou. É rejeitar exatamente os meios que Ele escolheu para salvar.
A afirmação de que “o importante é ter Deus no coração” é abstrato e não leva a uma mudança de vida genuína. Deus no coração sem obediência, sem sacramentos, sem forma e sem Igreja não é cristianismo; Cristo não chamou discípulos para apenas sentir Deus, mas para segui-Lo — e seguir implica forma, regra, compromisso e testemunho público.
As consequências de demonizar a religião tornam-se evidentes com o tempo: o homem se coloca no centro e constrói uma espiritualidade individualista e instável, dependente de entusiasmo e estímulos emocionais. Quando o entusiasmo se esgota, a fé se dissolve. Não se retorna à religião desprezada, nem se persevera na fé improvisada. Abandona-se tudo.
O catolicismo sempre compreendeu que a fé não se sustenta apenas no fervor passageiro, mas na verdade que permanece. Não vive só de emoção, mas de disciplina; não se reduz ao sentimento, porque se ancora nos sacramentos. É isso que sustenta o cristão quando o entusiasmo passa.
Não é a religião que mata. O que mata é uma espiritualidade sem corpo, sem Igreja e sem verdade.
E não é um “Espírito” moldado pelo indivíduo que salva.
O Espírito Santo salva por meio da Igreja que Cristo fundou.
Isso tem nome. Sempre teve. Chama-se religião — quando é verdadeira.

