O silêncio que me atraiu

Patrícia Castro

1/10/20264 min read

Quando uma amiga me convidou para ir à missa pela primeira vez, no último dia de 2021, eu aceitei de imediato. Foram 28 anos frequentando culto neopentecostal, e eu já estava cansada do barulho do louvor. E olhe que nem era uma dessas igrejas em que o pastor sobe no púlpito de calça rasgada e dança como um roqueiro. Ainda assim, o som da bateria e a voz aguda das ministras de louvor, cantando e gritando, me deixavam tão agitada e vazia que eu fazia questão de chegar depois das músicas para ouvir apenas a pregação da Palavra.

Ao entrar na Igreja, antes de começar a Missa o silêncio foi impactante para mim. As pessoas falavam baixo, caminhavam devagar, sentavam-se sem pressa, eram reverentes com o altar. Havia ali uma consciência clara de que aquele espaço não era comum. Confesso que me senti mundana no meio delas, porque, até então, eu não fazia ideia da existência de locais sagrados.

Quando me ajoelhei no início da celebração, dei-me conta do quanto eu estava exausta e de como o silêncio é importante para aquietar a nossa alma e nos conduzir a Deus.

Pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação de estar em um lugar sagrado. Sem música de fundo, sem estímulos visuais em telões, sem nada que colocasse as minhas emoções acima do que realmente importa: a presença real de Cristo na Eucaristia. Claro que essa realidade da Transubstanciação eu só fui compreender meses depois.

Mas o que quero relatar hoje é que existe um silêncio que não é vazio, nem fuga. E nós precisamos desse silêncio para ouvir Deus falar — e quando Ele fala, tudo o mais se cala.

Naquele momento, entendi que o meu incômodo era a ausência de recolhimento, palavra que eu desconhecia no meio protestante. O silêncio da Igreja me acolheu. O silêncio não existe porque a missa é tediosa, mas porque a missa é uma oração. Ali, pela primeira vez em muito tempo, eu não precisei me defender do barulho para conseguir rezar.

Lembrei que a Bíblia não romantiza a agitação; pelo contrário, várias passagens revelam que Deus nos convida a nos trancar no quarto ou a subir aos montes, fugindo de toda agitação e êxtase emocional. Deus nos chama para dentro, para o alto, para o recolhimento.

Esse contraste aparece de forma muito clara no episódio de Marta e Maria. Marta se agitava com muitos afazeres, preocupada em servir a Jesus à sua maneira. Maria, ao contrário, sentava-se aos pés de Jesus para escutá-Lo. Jesus não repreende o serviço, mas a agitação interior que faz perder o essencial:

“Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas com muitas coisas; no entanto, uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc 10:41-42)

Moisés também não ouviu Deus no meio do povo dançando em torno do bezerro de ouro. Ele subiu o monte. Entrou na nuvem. Afastou-se do ruído.

“Moisés subiu ao monte de Deus.” (Êx 19:3)

O povo, enquanto isso, precisava de estímulos visíveis, sons altos, movimentos. O resultado foi idolatria travestida de celebração. Muito familiar, aliás.

Jesus segue o mesmo caminho. O Filho de Deus, quando queria se encontrar com o Pai, saía da multidão e retirava-se para lugares desertos.

“De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu e foi a um lugar deserto, e ali rezava.” (Mc 1:35)

Quando precisava discernir, decidir, resistir à tentação ou simplesmente estar com o Pai, Jesus se afastava. Subia o monte. Silenciava.

Antes do Sermão da Montanha, Ele sobe. Antes da Transfiguração, Ele sobe. Antes da Cruz, Ele se recolhe no Getsêmani.

O padrão é claro: Deus se revela no silêncio.

Hoje, porém, vemos um fenômeno estranho — e que piora a cada dia. Comunidades que confundem o Espírito Santo com estímulo sensorial. Igrejas de parede preta realizando cultos que mais se parecem com uma boate. Onde está o sagrado? Luzes, gritos, música alta, pessoas pulando e dançando, emoções à flor da pele… não há recolhimento, não há reverência. Quem escuta alguma coisa naquele barulho?

Tudo é movimento. Tudo é barulho. Tudo é sensação. Mas onde está Deus nisso tudo?

O profeta Elias nos dá a resposta:

“O Senhor não estava no vento forte, nem no terremoto, nem no fogo.
Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave.” (1Rs 19:11-12)

Deus não compete com o ruído. Deus não grita para ser ouvido. Quem quer escutá-Lo precisa silenciar.

A cultura moderna tem pavor do silêncio porque ele desmonta ilusões, expõe o vazio interior e confronta a alma agitada, cansada de carregar pecados não confessados. Por isso, tantas seitas mantêm as pessoas ocupadas, agitadas, emocionalmente estimuladas. O barulho impede a pergunta essencial: “O que Deus realmente está me dizendo?”

O silêncio, ao contrário, educa o coração. Ele nos coloca no nosso devido lugar: criaturas diante do Criador. Não somos protagonistas de um show religioso, feitos para dançar, pular e ainda postar nas redes sociais as caras e bocas do “êxtase espiritual”. Somos filhos, chamados a reconhecer a voz do Pai.

Às vezes, as pessoas me perguntam como fui parar na Igreja Católica. A resposta é complexa e extensa, mas uma coisa é certa: o silêncio me atraiu.

O silêncio fecundo da Presença de Deus me atraiu.

Porque quem aprende a calar diante de Deus aprende, finalmente, a ouvir — e quem ouve já não precisa dançar em volta de ídolos para se sentir vivo.

Há pessoas que se desviaram da Igreja Católica, passaram por igrejas protestantes, peregrinaram por muitas delas e acabaram se tornando “cristãos em casa”, os chamados desigrejados, tão comuns hoje. São pessoas que deixaram a fé acreditando que seriam saciadas — e não foram.

A vocês, deixo um conselho: voltem para casa. No silêncio, o Senhor lhes dará a paz que foi perdida.