Quando o Tempo Andava Devagar
Patrícia Castro
12/9/20253 min read
Eu nasci na década de 70 e, na infância que vivi nos anos seguintes, tinha a nítida sensação de que o tempo caminhava devagar. Minha infância seguia o compasso das coisas que não tinham pressa: as tardes pareciam mais longas, as férias eram intermináveis e o Natal… ah, o Natal levava uma eternidade para chegar. Era como se o tempo, generoso, abrisse espaço para que a vida coubesse inteira dentro de cada dia.
Cresci acreditando que o tempo era um rio manso. As horas se estendiam em silêncio, e a vida acontecia num compasso quase artesanal. A gente esperava mais, desejava mais, sonhava mais — e, paradoxalmente, sofria menos com essa espera. Havia sabor no intervalo entre uma coisa e outra. E, sinceramente, não me lembro de ter conhecido a palavra estresse naquela época.
Hoje, porém, o tempo corre. Às vezes me pergunto se essa sensação vem apenas do amadurecimento, mas basta olhar a agenda das crianças de agora para perceber que elas já não experimentam aquela doce lentidão que marcou a minha geração. Talvez seja o mundo que acelerou demais; talvez sejamos nós que nos deixamos arrastar por uma pressa que nem entendemos mais. Os dias passam correndo, as semanas se desfazem, os anos escorrem como água entre os dedos. Quando vemos, já é véspera de Natal de novo — e tudo o que deveria ter sido vivido com calma acabou se empilhando, comprimido em rotinas apressadas.
Antigamente, um jovem escolhia sua profissão quase como quem escolhe um destino. Havia um senso de permanência, de continuidade, de raiz. Um pai era sapateiro, o filho muitas vezes também seria; um avô era médico, o neto seguiria o mesmo caminho. A profissão não era apenas um meio de sustento — era uma identidade, uma forma de estar no mundo, uma parte da vida que se estendia até a velhice.
Hoje, porém, tudo mudou. As profissões se transformam na mesma velocidade em que a tecnologia avança. O que aprendemos agora talvez já esteja ultrapassado daqui a poucos anos. Um jovem que ingressa na universidade não tem mais a garantia de que aquilo que estuda lhe servirá para o futuro. O mercado é fluido, instável, e exige uma adaptabilidade que nossas gerações passadas sequer imaginavam.
E essa volatilidade não afeta apenas o trabalho — ela molda a alma. Gera insegurança, ansiedade, uma sensação permanente de que é preciso correr para não ficar para trás. Se antes o desafio era perseverar, hoje o desafio é acompanhar.
A vida se tornou uma espécie de mar revolto, e muitos jovens não têm um porto seguro para ancorar suas escolhas. E tudo isso reforça a impressão de que vivemos num tempo líquido, em que nada é sólido, nada é duradouro, nada permanece — nem mesmo aquilo que deveria acompanhar uma pessoa por toda a vida.
Talvez por isso tanta gente experimente um cansaço precoce, uma exaustão que não nasce do excesso de trabalho, mas do excesso de incerteza. Vivemos tentando acompanhar um mundo que não para, e essa corrida constante desgasta a alma. A instabilidade que marca nosso tempo acaba revelando algo profundo: aquilo que é passageiro cansa; aquilo que é eterno sustenta. Só o que vem de Deus permanece firme enquanto tudo ao redor se move.
E é justamente aí que a maturidade se torna um convite para voltar ao essencial. Perceber que não é o tempo que passa depressa — somos nós que passamos rápido demais por ele. Quando caminhamos apressados, a paisagem da vida se torna borrão. Por isso, hoje tento reaprender aquilo que, sem perceber, já soube na infância: deixar o Natal demorar, permitir que os dias se alonguem, dar às horas espaço para respirar. O tempo continua sendo o mesmo; quem precisa reencontrar o compasso sou eu.

