Você apenas conta os seus dias ou está vivendo o sentido do Calendário Litúrgico?
Patrícia Castro
1/2/20264 min read
Quando criança, a virada de ano para mim era carregada de expectativas. Eu observava a euforia dos adultos, as imagens na TV, os brindes cheios de promessas e a contagem regressiva parecia anunciar o início de uma vida completamente nova. Naquele tempo, eu acreditava que, ao mudar o último número do calendário, o mundo ficaria mais leve, mais colorido, e que as dores antigas ficariam definitivamente presas ao rótulo de “ano passado”.
O tempo, porém, é um mestre severo que acaba com qualquer ilusão infantil. Com a maturidade, fui aprendendo que a virada do ano não passa de uma convenção humana. O dia 1º de janeiro amanhece com a mesma luz de sempre e, para mim, que vivo no coração de Goiás, com o mesmo sol implacável que não respeita festas e feriados.
Viver o início do ano sob o céu goiano é um exercício de realismo. Enquanto propagandas de fim de ano mostram imagens na neve, que nos dão impressão de frescor, a realidade se impõe com o auge do verão: calor intenso, ar seco e a vontade de estar sempre num ambiente com ar-condicionado. Se houve excessos no dia 31, a ressaca não desaparece com os fogos; ela permanece, lembrando que nosso corpo continua submetido aos mesmos limites. O mundo acorda igual. As estruturas permanecem. Se não fizemos nada para mudar, os vícios continuam. As contas seguem chegando. O relógio apenas avançou.
Jogamos fora o calendário como quem descarta algo sem valor. No entanto, se pararmos para pensar, ali se foram doze meses da nossa vida. Perdemos mais um ano — e não sabemos quantos ainda nos restam. Alguns dos nossos amigos e familiares se foram e não tiveram tempo de atravessar este ano conosco. Nós, porém, ainda estamos aqui. E a nossa permanência nessa existência nos obriga a reconhecer que de fato perdemos mais um ano e a única certeza que temos é o tempo presente.
Talvez seja por isso que me cause estranhamento o entusiasmo típico dessa época. A cada janeiro, proliferam discursos que prometem reinvenção imediata, sucesso mensurável e uma suposta “nova versão” de nós mesmos. Fala-se em virar chaves, bater metas, manifestar resultados, como se a vida obedecesse a fórmulas motivacionais e o tempo pudesse ser controlado por frases de efeito. Não pretendo desestimular os sonhos de ninguém, mas a experiência mostra que esse tipo de entusiasmo costuma ser breve e, quase sempre, não atravessa o próprio mês de janeiro.
Talvez por essa razão seja tão importante fazer parte da Igreja, pois ela nos coloca em constante contato com a realidade, sendo ela a própria realidade, como dizia o filósofo Olavo de Carvalho. A Igreja segue por outro caminho — e foi ela quem me ensinou a olhar o tempo com mais seriedade. A Igreja não nos deixa esquecer de que a simples troca de datas seja capaz de renovar o homem. Por isso, não submete a vida espiritual ao calendário civil, pois o tempo não é uma mercadoria que podemos comprar e nem inimigo que precisamos vencer; O tempo é um dom, que deve ser administrado com responsabilidade e ocasião de salvação.
É dessa consciência que nasce o Calendário Litúrgico com a nobre finalidade de formar as almas para o Céu. Cada ano vivido é tempo de avaliar o quanto estamos caminhando para nos tornarmos santos. Acredito que grande parte dos católicos, que frequentam as missas todos os domingos sem aprofundar sobre a riqueza da fé católica, não entendem o que a Igreja faz ano após ano, através desse precioso calendário: o Advento, tempo de espera e vigilância; o Natal, no qual Deus entra silenciosamente na história; a Páscoa, centro da fé cristã, onde a morte é vencida; e o Tempo Comum, onde somos chamados a viver o extraordinário na rotina da vida.
Esse ciclo se repete propositalmente, ano após ano, porque é característica humana uma lentidão no processo de conversão. Meu caro irmão católico, a Igreja Católica não está preocupada em te oferecer um entusiasmo passageiro, mas ela te chama todos os dias a trilhar o caminho de santidade. Por isso, você jamais ouvirá da Igreja a promessa de um ano repleto de vitórias ou prosperidade material. A Igreja não está interessada em quantos bens você acumula nem em quantos símbolos de sucesso são necessários para satisfazer a vaidade humana. Ao contrário, ela nos ensina o desapego, lembrando que tudo isso passa, se corrompe e, no fim, se reduz ao pó. O que permanece é aquilo que não pode ser medido nem possuído: a vida eterna em Deus. Por isso, a Igreja te aponta o Cristo crucificado. E ao anunciar Cristo, chama cada fiel a tomar a própria cruz e segui-Lo, mesmo quando isso custa sacrifício, renúncia e, se necessário, a própria vida.
Não é por acaso que o primeiro dia do ano civil é, para a Igreja, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Maria é mãe da segunda pessoa da Santíssima Trindade e, como Cristo é a cabeça da Igreja, Maria é nossa mãe também. Afinal, que sentido teria ser mãe da cabeça sem o corpo? Ser filho de Maria nos traz um profundo senso de realidade: não somos indivíduos isolados no tempo, reinventando a nós mesmos a cada calendário ou criando nossas próprias regras. Somos membros de um corpo vivo, inseridos numa história de salvação que nos precede e nos ultrapassa. Sob a maternidade de Maria, aprendemos que o tempo não se vence, nem se ignora; ele se atravessa com fidelidade, obediência e perseverança. Maria nos ensina a obedecer mesmo quando uma espada atravessa nossa alma.
O calendário civil apenas conta os dias. O Calendário Litúrgico nos ensina a vivê-los, cada um como se fosse único, e a trilhar nosso processo de conversão. O primeiro registra o tempo que passa; o segundo nos chama a crescer e a nos transformar dentro do tempo que ainda nos resta. A conversão cristã começa quando aceitamos que o tempo não nos pertence e que cada dia desperdiçado é uma oportunidade perdida de amar, perdoar, servir e buscar a santidade.
No fim, a pergunta que permanece não é se o ano mudou, mas se eu mudei.
